Escrito por: Natan Teodoro.
Após alguns comentários aqui Blog e no Facebook, algumas pessoas apresentaram sugestões para novos temas, e, por questões democráticas decidi postar sobre o primeiro tema que recebi. Não que este seja melhor ou mais importante que os outros, mas é igualmente polêmico e instigante.
Pois bem, falaremos neste momento sobre dízimos e ofertas. Para alguns uma ordem dada por Deus, ordem essa sem possibilidade de ser refutada ou protestada por ninguém, obrigação de todo e qualquer crente que ama e tem fé em Deus. Para outros mais uma má interpretação bíblica feita pelas instituições religiosas, principalmente as cristãs de cunho pentecostal e neopentecostal que, aproveitando da inocência e temor dos membros, enganam o povo para encher o bolso dos pastores.
Será que alguma dessas duas opiniões estão certas? Ou existe uma terceira que é capaz de ter equilíbrio, não ferir o sentimento dos fiéis que dão o dízimo e ser capaz de convencer os mais críticos a ponto deles aceitarem uma contribuição como esta? Talvez é o que tentarei fazer aqui, construir uma opinião que possa ser embasada na Bíblia e ter o bom senso de chegar a um ponto de equilíbrio na questão.
Primeiramente começaremos analisando a situação em que vivemos: Vejo alguns apelos dramáticos em favor do dízimo e das ofertas, principalmente pela televisão existe uma pressão envolvendo o dar o dízimo. Essa coação vem com promessas de bênçãos divinas tais como: “Deus te recompensará em dobro”, “Assim você está demonstrando sua fé” entre outros apelos geralmente emotivos. Enquanto isso vemos catedrais sendo erguidas, igrejas cada vez mais sofisticadas e luxuosas, emissoras de televisão e de rádio sendo adquiridas pelas instituições religiosas, pastores enriquecendo de forma exorbitante mostrando isso com carros importados, fazendas, mansões e etc.
E, por outro lado, um grande grupo que critica ferozmente as instituições religiosas, seus pastores chamando-os de ladrões e seus membros insultando-os de ignorantes, bobos, inocentes e por ai vai. Dentro deste grupo estão geralmente ateus, cristãos de uma linha que defende um evangelho mais social de porte assistencialista e até revolucionário e pessoas que são denominadas “sem-religião”, estes se definem como um grupo que não frequenta instituições religiosas, mas que creem no Deus da Bíblia e em Jesus Cristo.
Antes de julgarmos vamos a Bíblia, lembrando que não farei um estudo profundo da Bíblia, mas trarei algumas informações importantes sobre o tema, tentando esclarecer esta discussão: No Antigo Testamento temos algumas referências aos dízimos que merecem toda nossa atenção, uma delas é o primeiro dízimo a ser pago por Abrão a Melquisedeque (Gênesis 14) relembraremos essa referencia mais tarde.
A instituição e a finalidade dos dízimos é descrita na Lei – Pentateuco (cinco primeiros livros da Bíblia que são a Lei que os judeus seguem) e lá nos mostra que os dízimos eram para sustento dos Levitas (pessoas de uma tribo que trabalhavam no Templo), pois, estes não possuíam propriedade nenhuma (Números 18:21-24) e para sustento das viúvas, órfãos e estrangeiros que não pudessem se sustentar sozinhos (Deuteronômio 14:28-29). No resto do Antigo Testamento as referências sobre os dízimos se mantém apenas como citação a Lei, somente escapa desse quadro o emblemático texto de Malaquias 3:6-12 que é o principal argumento para os que defendem o dízimo.
No caso de Malaquias temos uma pequena confusão: Quando alguém fala, este fala para um ou mais ouvintes, logo, se temos um profeta que é Malaquias, temos uma profecia/acusação que é o texto de Malaquias 3:6-12, temos que ter, portanto, alguém que ouve estas palavras, que são os sacerdotes e levitas de Jerusalém e não o povo todo. Concluo isto a partir das referências iniciadas no capítulo 2 onde o discurso começa: 2:1, 2:4, 2:8 e 9:2-11 neste caso Judá e Jerusalém referem-se à cidade considerada santa, onde se localizava o templo mais importante de Israel; 2:13 referência aos que cuidavam do templo tanto sacerdotes quanto levitas, pois, eram os únicos que podiam tocar no altar e nas coisas do templo; 3:3-4 e por fim desemboca no 3:6-12:
6 Porque eu, o SENHOR, não mudo; por isso, vós, ó filhos de Jacó, não sois consumidos. 7 Desde os dias de vossos pais, vos desviastes dos meus estatutos e não os guardastes; tornai-vos para mim, e eu me tornarei para vós outros, diz o SENHOR dos Exércitos; mas vós dizeis: Em que havemos de tornar? 8 Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas. 9 Com maldição sois amaldiçoados, porque a mim me roubais, vós, a nação toda. 10 Trazei todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na minha casa; e provai-me nisto, diz o SENHOR dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós bênção sem medida. 11 Por vossa causa, repreenderei o devorador, para que não vos consuma o fruto da terra; a vossa vide no campo não será estéril, diz o SENHOR dos Exércitos. 12 Todas as nações vos chamarão felizes, porque vós sereis uma terra deleitosa, diz o SENHOR dos Exércitos.Não coloquei os outros versículos nosso texto não ficar muito extenso, mas espero que acompanhe na sua Bíblia.
Alguns podem se referir ao versículo 9 onde se refere a “nação toda”, porém, analisando a Bíblia na língua hebraica percebo que as palavras “vós” e “toda” que respectivamente antecedem e sucedem a palavra nação não estão contidas no texto hebraico, portanto, eu traduziria como “roubais a mim e a nação” sendo uma mensagem direta para os antigos administradores dos dízimos que, provavelmente gerenciavam os dízimos de forma errada, esquecendo-se das viúvas, órfãos e estrangeiros.
As únicas referências aos dízimos no Novo testamento são Mateus 23:23; Lucas 11:42, ambas referindo-se ao mesmo episódio em que Jesus critica os fariseus por dar o dízimo e esquecer-se dos preceitos como justiça, misericórdia e a fé; Lucas 18,12 relembrando o discurso de Jesus sobre a oração hipócrita do fariseu acrescentando o dízimo como sinal de justiça de sua parte e a oração contrita do publicano. Hebreus 7:2 e 4 retornando ao primeiro dízimo descrito na Bíblia, que Abrão deu a Melquisedeque, porém, essa referência não alude a grande fé de Abrão em dar o dízimo e sim acena para a grandeza de Melquisedeque. Ou seja, os textos que se referem ao dízimo no Novo Testamento o citam de forma indireta sem muitas pretensões.
No caso das ofertas temos o mesmo conceito, porém, sem distinção de valor, isto é, temos algo que precisa ser tratado com voluntariedade, contemos apenas algumas instruções neotestamentárias: A oferta não deveria ser entregue se houvesse algum atrito entre o ofertante e outro alguém (Mateus 5:23-24); o valor da oferta não é critério para defini-la, mas a atitude de quem ofertou (Lucas 21:1-4).
Nisto podemos chegar a algumas conclusões: Primeiramente uma critica ao radicalismo conservador que defende os dízimos – o dízimo não é critério de fé ou de amor a Deus, nem investimento que deve lucrar, também não é obrigação do membro, estamos tratando de instâncias voluntarias que são os dízimos e as ofertas, estas servem para manutenção física da construção que chamamos de igreja. Em alguns casos o salário dos que se dedicam exclusivamente aos afazeres da igreja, apoio aos que necessitam de ajuda financeira mesmo que este não esteja credenciado no rol de membros da instituição e critério para definir a efetividade e honestidade do administrador do montante dizimal.
Segundo uma critica aos mais rancorosos contra o dízimo e as ofertas – temos uma instituição que é reconhecida com (na maioria das vezes) CNPJ, isto reflete uma condição, ou seja, existem gastos dentro desta instituição, gastos estes que não vem de nenhuma iniciativa privada e nem dos benefícios públicos, a única vantagem que o Estado dá para as instituições religiosas é a isenção de impostos tendo em vista o trabalho que muitas igrejas fazem de recuperação de drogados, depressivos, doentes e etc. Isto reflete na sociedade como um favor que a igreja faz, portanto não é possível alguma igreja se manter sem ajuda de custo de seus membros, nisto reside à importância dos dízimos e ofertas.
Por isso a única coisa a ser questionada e protestada é a forma como o dízimo é exposto aos fiéis e a forma como é administrado pelos líderes religiosos, nisto também habita a urgência de criticas melhor orientadas e direcionadas.
Natan Teodoro e Joyce Caldeira, juntos desde sempre como grandes amigos, desde 2008 como um casal, e desde 2012 casados pela cerimônia cristã.