quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Dizemos "Não", mas falamos "Sim"

Por Natan Teodoro

Ultimamente tenho refletido sobre alguns discursos religiosos pregados em varias denominações, e me interpelo sobre alguns conteúdos um tanto quanto constrangedores para muitos cristãos. Assuntos estes que revelam o dinamismo das relações religiosas, neste caso cristãs. Dinamismo este que introduz um "mix religioso" nos mais variados contextos evangélicos e católicos.

Tecnicamente essa dinâmica aqui referida é chamada de sincretismo religioso. Basicamente, sincretismo religioso trata-se da inculturação inter-religiosa, onde praticas características de uma determinada religião é praticada sorrateiramente em outra religião, isto se dá pelo altíssimo trânsito religioso. Trânsito religioso é o nome que se dá quando há um grande número de pessoas indo de experiências religiosas para outras diferentes.

Neste constante movimento humano surge o sincretismo, pois, uma determinada pessoa que sai de uma religião leva consigo algumas características que adquiriu na antiga profissão de fé, e, quando parte para outra confissão de fé esta recebe outras doutrinas, porém, a mesma não deixou totalmente a antiga, neste caso cria-se uma mistura homogênea entre o novo e o velho aparecendo então uma pratica diferente, menciono prática, pois, oficialmente quase todas as denominações cristãs não aceitam essa mistura, no entanto, cotidianamente o quadro é diferente.

Um exemplo claro desse processo são as práticas da Igreja Universal do Reino de Deus, nesta pratica-se a sucção das maldições presentes no lar por meio de uma rosa abençoada, esta flor depois de um tempo é jogada fora junto com as maldições por ela sugadas. Outro exemplo nesta mesma instituição é o uso de sal grosso para "desintoxicação espiritual" do fiel que purifica-se das possessões demoníacas presentes em seu espírito. Essas práticas a pouco citadas são características obvias de religiões afro-brasileiras como o candomblé e a umbanda, muito presentes no Brasil.

Ainda no âmbito dos exemplos, temos o caso da Igreja Católica Carismática conhecida como Canção Nova, nas celebrações e missas realizadas por esta igreja é possível identificar canções evangélicas e práticas caracterizadas como propriedade exclusiva dos evangélicos, tais como o falar em outras línguas (glossolália), expulsar demônios, pregações enfáticas e em voz alta.

Estes foram alguns exemplos muito evidentes do sincretismo, porém, existem aqueles mais contidos como por exemplo no caso da Igreja Assembléia de Deus que doutrinalmente afirma o arminianismo, ou seja, o ser humano é responsável por buscar sua salvação ou entregar-se a perdição, tendo como pressuposto o total livre arbítrio. No entanto, é fácil ouvir numa das suas pregações afirmações como "você é escolhido de Deus", "Deus te trouxe até aqui", ou ainda "Deus te escolheu desde o ventre de sua mãe para estar aqui hoje", sentenças essas que são pronunciadas pelos que acreditam na predestinação, isto é, Deus predestinou uns para a salvação e outros para a condenação desde a fundação do mundo retirando assim toda a responsabilidade salvífica do ser humano, essa doutrina é encontrada entre os presbiterianos e outros grupos cristãos reformados.

Ainda na Assembléia de Deus, temos uma doutrina que foi prontamente negada desde sua criação, por volta da década de 1960, a saber a famosa teologia da prosperidade. De forma básica esta teologia propõe que Deus sendo rei, os seus filhos serão príncipes, estes devem participar das riquezas deste mundo, pois, sua condição de príncipes dá esse direito a eles. Este discurso foi inicialmente repudiado pelos assembleianos, porém, é comum notar frases pronunciadas no púlpito em tom de que Deus vai dar casas, carros, altos salários e outras riquezas, é só ser fiel a Deus, não pecar e dar o dízimo que, Deus abrirá os céus e te abençoará com as riquezas materiais deste mundo.

E, depois de todas estas observações o que podemos considerar? Existe um esforço muito grande por parte das denominações em crescer numericamente, justificando seus meios por este fim - crescer à moda do mundo - ou seja, aumentar o número de seus fiéis, crescer financeiramente e estruturalmente, tendo como estrutura os grandes templos, serem reconhecidos mundialmente por seu poder econômico e político. E com isto facilmente permitem outras experiências religiosas entrarem no rol de suas práticas, simplesmente pelo fato de moldar-se ao gosto do fiel que, nesta relação se torna consumidor de uma religião, e quando a mesma não lhe agrada este deixa de consumi-la e troca de prestador de serviço religioso, ou, traduzindo, muda de igreja, pois, a antiga não lhe encanta mais. Por isso notamos este grande "caldeirão" de diferentes práticas religiosas misturando-se umas as outras criando assim uma coisa totalmente inusitada, um híbrido sagrado que não se sabe ao certo quem é quem neste processo, então, assim como no episódio da torre de Babel (Gênesis 11) todos falam a mesma língua - crescer, enriquecer e mandar - será que Deus precisará confundir novamente as línguas dos homens e mulheres?

Obviamente existem aquelas religiões que se fecham em si mesmas e não conversam com ninguém, caso dos Testemunhas de Jeová e a Congregação Cristã. Eu acredito que as religiões devem conversar entre si buscando um ponto de equilíbrio entre o respeito e as diferenças, para, com isso, crescer espiritualmente e aprender com o diferente, porém, misturar-se assim como está acontecendo é uma tentativa vã, que não levará em lugar algum, assim como fechar-se para o mundo no extremo do exclusivismo é manter-se como que com um cabresto, onde não se permite descobrir-se e ser uma pessoa melhor, um cristão melhor, e, mesmo que venha mudar as práticas religiosas por influências externas, que as vezes não é ruim, para que seja oficial, assumido, tendo uma atitude de coragem e sinceridade.

Por estes motivos afirmo que precisamos voltar ao exemplo de Jesus Cristo: "Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achando-se na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz" (Filipenses 2,6-8).

Neste texto notamos a humildade do próprio Deus que, destituiu-se da sua própria glória, não tendo medo dos homens o acharem fraco, sem poder, um péssimo Deus, não, pelo contrário, a lógica do Reino de Deus é a do serviço mútuo, do se colocar abaixo do próximo, de entender que o outro é mais importante do que o eu, de trabalhar pelo Reino de Deus simplesmente por gratuidade e não por recompensas; este é o caminho que as igrejas deveriam seguir, o caminhar na lógica de Deus e não na lógica do mundo.

4 comentários:

  1. É isso ai Natan, muito bem observado, ótimo artigo, parabéns.

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  2. Esse é o problema de pessoas que tem uma espécie diferente de instinto revolucionário, tal adjetivo que faz o indivíduo a vir fundar uma nova denominação com uma forma doutrinária diferente das outras que sirva a ele mesmo, porém, nunca satisfazem a todos, e principalmente outras pessoas que são "revolucionárias" também.

    Ótimo artigo, fico tuloco

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    1. Bem comentado Silas, porém, quando é fundada alguma denominação, geralmente, a doutrina é igual a igreja anterior, o que vai mudar é que aquele que criou essa nova igreja é quem vai mandar, vai decidir o que vai e o que não vai acontecer. Ou seja, as pessoas muitas vezes montam novas igrejas pela vaidade de comandar e em algumas situações pela questão financeira, isto é, arrecadar dinheiro para si.
      Obrigado pelo comentário que Deus te abençoe.

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